Biblioteca Camilo Castelo Branco VR

  1. A vida em tempos de coronavírus


    Que coisa são as nuvens
    Por José Tolentino Mendonça




    Codogno, Itália | Associated Press





    E-Mail
    A iminência de uma crise viral como que nos autoriza a dar voz aos nossos medos submersos

    H
    á um verso de T. S. Eliot que diz que a vida e a morte estão entre aquelas coisas que mais queríamos esquecer. Mas a verdade é que uma e outra possuem uma realidade pegada à nossa carne, uma realidade teimosa, resiliente, irremovível, que emerge para lá das nossas previsões e se insinua continuamente, contrariando o frágil bricabraque dos nossos ocultamentos. É sintomática a expressão “cisne negro” usada na economia para descrever acontecimentos de baixíssima probabilidade e que provocam, porém, um abalo de altíssimo impacto. Neste nosso século XXI, foi assim com o 11 de Setembro. Tem sido assim com a emergência dos refugiados. É agora assim com o coronavírus.
    O controlo tornou-se um mito das nossas sociedades. Criámos a ilusão de um controlo a cem por cento, com uma eficácia que julgamos blindada, à prova de fogo. Reduzimos a abordagem do real a um monte de automatismos. E, desse modo, enxotámos a vida, na sua complexidade, e a morte, na sua nudez sem palavras, para uma dimensão quase fantasmática, onde elas deslizam sim, mas supostamente distantes de nós e no reverso daquilo que quotidianamente vivemos ou esperamos. Isto é, passamos a encarar ambas com a baixíssima probabilidade que a economia atribui aos chamados cisnes negros.
    Por isso, o medo que nos assalta quanto à contaminação do coronavírus, em parte é, de facto, pelo coronavírus e em parte é porque encontramos aí uma forma para exteriorizar tantos outros medos, racionais e irracionais, que nos habitam, mas aos quais não permitimos expressão. A iminência de uma crise viral como que nos autoriza a dar voz aos nossos medos submersos, e a exorcizar, através da precipitação numa angústia social extrema, aquela que é a nossa angústia mais profunda e reprimida. Devemos saber, porém, que o medo é um adversário difícil. E por uma razão: ele promove uma batalha não apenas contra o nosso corpo, mas avança poderoso sobre a nossa alma, e, quando a captura, não nos dá mais sossego. As nossas sociedades da era da globalização descobrem traumaticamente aquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman explicou: que estamos provavelmente mais fortes com tudo aquilo que temos, mas também mais expostos aos golpes do destino, face aos quais nos tornamos sempre mais vulneráveis, impreparados emotivamente para geri-los, desprovidos de uma visão que lhe confira sentido.
    O medo é um adversário difícil. Promove uma batalha não apenas contra corpo, mas avança poderoso sobre a alma, e, quando a captura, não nos dá mais sossego.


    Mas nem sempre é assim. E prova-o uma história destes dias, a de Codogno, a atribulada localidade onde, no último 20 de fevereiro, se detetou o paciente número 1 infetado com coronavírus no território italiano. Continua a estar na declarada “zona vermelha” e sujeita a medidas drásticas (ninguém pode sair ou entrar em Codogno sem autorização; todos os serviços estão fechados, salvo os essenciais; os transportes públicos estão suspensos...). Mas, um destes dias, um professor que habita ali enviou uma carta a um jornal nacional onde a par do sofrimento vivido por aquela comunidade testemunha que também há coisas boas a acontecer: “Ao longo da alameda, quando damos um passeio com os cães, encontramos imensas pessoas, poucas agora usando máscara, e damos por nós a conversar com perfeitos desconhecidos, que provavelmente se tornarão amigos. As ciclovias que dão para a mata estão frequentadas como nunca as vi. Procuramos todos dar uma mão e colaborar, desde os bens de supermercado às pequenas necessidades quotidianas.” No dia em que publicou esta carta, o jornal mostrou um outdoor produzido por uma associação local que dizia o seguinte: “Codogno é uma doença que não nos larga mais.”

    E-Revista, Semanário Expresso, 7 de março de 2020


  2. As redes sociais e as selfies



    Imagem: Pixabay




    S
    uponho que não existem muitas pessoas que tenham falado tão abertamente da vida privada quanto eu. Nada tenho a esconder, gosto da escrita intimista e habituei-me a ler autobiografias. Foi por isso que publiquei “Bilhete de Identidade”. Não estava à espera do alarido que a obra causou, nem, muito menos, das reacções, positivas e negativas, por parte de amigos, familiares e colegas. O meu propósito não era o de me exibir, mas o de tentar falar de mim e do meu país aproveitando os ensinamentos da sociologia. Aliás, e não é um pormenor despiciendo, foi numa cave de Kingston Road, em Oxford, que em dois verões sucessivos — o de 2003 e o de 2004 — escrevi o livro.


    Vem isto a propósito da reacção de espanto de certas pessoas quando lhes digo que não faço ideia do que seja um blogue, não tenho o WhatsApp, não uso o Instagram, nem, muito menos, o Facebook. Isto deriva, em certa medida, de não possuir jeito para lidar com máquinas, mas não é esse o factor principal que me levou a distan­ciar das redes sociais. Não desprezo nem odeio as pessoas que vivem dependentes destas formas de comunicação. Simplesmente, não me interessam. Para escrever, tenho o computador, e para falar com os amigos, o e-mail. Isto me basta. Mas sei que o meu mundo está a ser substituído por outro.

    Os portugueses dedicam, em média, uma hora e meia por dia a consultar as redes sociais. Este facto explica os disparates que alguns me revelam como se de realidades se tratassem.

    Podem acusar-me de reaccionária. Mas não é o caso: não pretendo proibir a ninguém o uso das novas maravilhas tecnológicas. Não pertenço à família ideológica do duque de Wellington, um homem que, na década de 1840, discursou na Câmara dos Lordes contra a construção das linhas férreas. Eis como o estratega das Linhas de Torres Vedras e vencedor de Napoleão em Waterloo justificou a sua posição: “Apenas iriam contribuir para encorajar as classes baixas a andar de um lado para o outro.” Pelo contrário, julgo, como Fontes Pereira de Melo, que os comboios representaram um progresso.
    Notei há dias que os portugueses dedicam, em média, uma hora e meia por dia a consultar as redes sociais. Este facto explica os disparates que alguns me revelam como se de realidades se tratassem. Isto para não mencionar o facto de o Presidente do país mais influente do mundo, D. Trump, em vez de comunicar com os seus eleitores e com as potências estrangeiras através de discursos racionais, ter optado por usar uma coisa chamada Twitter.
    Actualmente existem no mundo cerca de sete mil milhões de pes­soas, dos quais cinco mil milhões pos­suem um telemóvel, através do qual têm acesso às redes sociais. Não me espanta que as editoras se estejam a arruinar e que o livro pareça hoje um utensílio tão anacrónico quanto uma foice. Quando viajam, há pessoas que nada vêem do que têm diante de si, preferindo fotografar-se ao lado da estátua de David, em Florença — aliás, uma cópia —, a fim de, no regresso, fazerem inveja aos amigos que nunca se deslocaram a Itália. Se lhes perguntarmos quem foi o escultor, apenas uma minoria será capaz de dizer que o seu nome era Miguel Ângelo. Estamos diante da primeira geração do homo idiota.
    Maria Filomena Mónica*. E-Revista, Semanário Expresso, 7 de março de 2020

    Maria Filomena Mónica escreve de acordo com a antiga ortografia
  3. Escrita | Sugestões para o mês de abril






  4. Leitura | Sugestões para o mês de abril






    Boas leituras!!


  5. O prazer de (com)parar | Um decameron do século XXI




    Pintura de John William Waterhouse- Os jovens durante a narrativa




    “April is the cruellest month, breeding 
    Lilacs out of the dead land, mixing 
    Memory and desire, stirring 
    Dull roots with Spring rain”.

    T.S.Eliot



    Bons Contactos, Bons Contágios 

    Neste tempo comum de estranheza e rotinas reinventadas, o Instituto de Literatura Comparada lançou a si mesmo o desafio de um trabalho colectivo em torno d’O prazer de (com)parar.

    Palavras como «contágio» e «contaminação» fazem parte do glossário do nosso projecto, tendo nós o dever de lhes preservar sentidos instigantes e enriquecedores, que não as deixem reféns do actual cenário. Iniciamos, pois, um Decameron do século XXI, formado por textos ou excertos de obras literárias de géneros vários, por textos inéditos curtos de poesia ou prosa, e por imagens (pintura, fotografia, cinema, vídeo…), de qualquer época ou latitude, mas sempre devidamente identificados. Todas as sugestões são publicadas diariamente no website do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.



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